Hoje eu estava lembrando do dia em que cheguei a sua casa e me deu um vazio tão grande em saber que um dia terei de partir. Eu ouvi a senhora dizer: "Bob anda muito cansado", sabe, mãe, não é cansaço, não é falta de vontade, é o peso dos anos que já estão me maltratando e, acredite, isso dói tanto em mim. Dói saber que o fim está se aproximando, dói saber que a senhora reluta em ver isso, dói quando ouço a senhora me acordar de um sono profundo pra se certificar de que eu ainda estou vivo, mas a dor não é por ser acordado, a dor é por saber que um dia eu não responderei mais ao seu chamado. Eu queria tanto preparar a senhora para isso, mas não sei como, talvez não exista um jeito pra isso, e por pensar assim é que dou-lhe o que tenho de mais valioso, o que tenho de mais bonito que é o meu amor. Parece tão pouco, não é?! Mas eu e a senhora sabemos o tamanho desse sentimento, venho mostrando, ao longo desses onze anos, o quanto lhe amo, o quanto lhe protejo, o quanto me preocupo. Quando eu partir, não deixarei herança alguma, eu sei, mas lhe fiz conhecer o que é dedicação, o que é amar sem pedir nada em troca, o que é ir dormir todas as noites sabendo que tem alguém ali guardando a sua vida. Ah e se, por um descuido, eu vivesse além dos quinze, se, por um descuido, eu vivesse mais uns dez anos, eu seria o cachorro mais feliz do mundo. Quando eu partir, peça a minha vó que me desculpe pelos sapatos comidos, pelos ossos que carreguei para o quarto dela. Eu era só um bebê. À Preta, peço desculpas por tantos pêlos espalhados na casa, mas afinal, quem não cai o cabelo, não é?! Ao meu padrasto, desculpas pela implicância no início, mas eu tinha a missão de proteger quem tanto me deu amor. Quanto a senhora, obrigado por me amar de forma tão grandiosa, por ter me aceitado como filho, por ter cuidado de mim esses anos todos, mesmo sabendo que eu não daria nada, além do meu amor, em troca. Obrigado!
PRISCILLA KATIÚSCIA GOMES DUTRA


