sábado, 26 de novembro de 2016

Poema Em Linha Reta


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

domingo, 6 de novembro de 2016

Amiga-irmã







Irmão é aquela pessoa que é filho da mesma mãe, do mesmo pai e que, desde o início, compartilha conosco amor, carinho e cuidado. É aquela pessoa que a gente quer proteger do resto do mundo, que a gente não quer que nada de mal aconteça. É um ser pelo qual a gente briga e com quem a gente briga, mas no final ficamos de bem, pois o laço que nos une é maior que qualquer desentendimento.
E o que dizer dos irmãos que a vida se encarrega de nos apresentar? Ah! Estes não são filhos da mesma mãe, tampouco do mesmo pai, mas aprendemos a amá-los de forma incondicional. Desenvolvemos, ao longo do tempo, a necessidade de proteger, de cuidar, de participar das conquistas e de amparar na dor. À medida que os anos passam, a gente até esquece do laço de sangue que nos separa e começamos a construir o nosso próprio laço. Este é uma espécie de elástico, sabe, daqueles demasiadamente resistentes onde um pode ir pra onde for, passar o tempo que for, esticar como quiser, mas o ‘laço-elástico’ permanecerá lá, intacto, ileso, resistindo ao tempo, à distância e solidificando cada vez mais a relação entre as partes. Ter um amigo-irmão é isso, né?! É deixar a relação livre pela certeza que temos de que um é parte importante do outro, é a leveza do amor pelo que a pessoa é, pelo coração bom que tem e que a gente aprende a admirar, respeitar e amar até seus defeitos.
Minha mãe me deu dois lindos irmãos, mas a vida me deu uma irmã linda, um ser iluminado, um pessoa dessas que a gente pensa: “será que é de verdade?!” Sim! Ela é de verdade! Dona de um coração bondoso, de um sorriso lindo e de um jeito cativante. Minha amiga, nesses anos todos de relação já rimos tanto, choramos tanto, aprendemos tanto e eu sinto que ainda temos muito pra viver, pra aprendermos uma com a outra, sinto que esse elástico que nos une ainda terá muito trabalho, sinto que eu ainda preciso muito de ti, que tu és parte de mim. Assim como com os irmãos de sangue, eu sinto vontade de proteger-te de tudo, de ficar ali cuidando pra que nada de ruim aconteça, mas sabemos da impossibilidade disso, por isso oro e peço a Deus que cuide, proteja, que só te dê alegrias, que te guarde, que guarde nosso príncipe Miguel, que cuide da tua família(me sinto nela também. Hehe), que todos os teus dias sejam de bênçãos. Feliz aniversário, minha amiga-irmã! Te amo infinitamente.
                         
                                    PRISCILLA KATIÚSCIA GOMES DUTRA